Eu morava na Holanda num quarto piramidal de uma casa construída há alguns séculos - eu não lembro. Tinha a data gravada em algum lugar. Mil setecentos e tanto, mil seicentos e tanto... eu não lembro. As paredes se fechavam num triângulo. Uma viga antiga de madeira atravessando o ar. Tinha essa cama ali que você pode ver na foto, onde um amigo dormia, e espaço pra puxar um colchão que ficava debaixo da cama. Eu dormia nesse colchão. No canto uma mesinha com o computador. Um frigobar. Mais nada cabia ali dentro além das malas com roupas e um monte de bagunça. Sempre um monte de bagunça.
Morei aí por um ou dois meses. Antes eu morava com outro amigo, mas fiquei sem trabalho, sem paciência, sem energia vital. Queria voltar pra casa. Queria explodir. Pegar fogo. Queria encher como um balão e sair voando. Desaparecer. Eu não sei. Estava perdido. Disse pro meu amigo: "Vou embora". Saco cheio, completamente cheio. Meu amigo do quarto piramidal disse: "Espere mais uns meses. Vem morar comigo". Eu fui. Fiquei ali um ou dois meses e arrumei emprego numa outra cidade no interior da Holanda - Nieuwegein, nem tente pronunciar isso ou sangue vai jorrar do seu nariz. Fiquei lá por seis meses trabalhando de au pair, que é praticamente um serviço de babá. É bizarro que um homem trabalhe de au pair, mas eu sempre gostei de crianças e elas sempre gostaram de mim. Eu tive algumas ofertas, aceitei essa porque a mãe era aeromoça e vivia sozinha - o marido era um bêbado inútil filho da puta, estava internado numa instituição, qualquer coisa. Depois de alguns meses ele voltou pra casa, começou a beber, deu merda. Já tive que entrar no meio de brigas cabulosas de casal, tirar a faca da mão dele enquanto ele gritava que ia me matar. Só olhei com desprezo e esperei ele chegar mais perto. Ia dar um soco tão forte que onde batesse não ia mais nascer cabelo, tanta raiva eu tinha do idiota. Mas ele não veio, é claro. Eu ri e fui voltei pro meu quarto carregando a faca enquanto eles continuavam gritando. Depois pensei em voltar pra casa outra vez - em explodir, pegar fogo, voar, qualquer coisa. Um amigo na França disse: "Vem pra cá". Eu fui. Fiquei lá um mês depois fui pra Espanha onde ainda fiquei mais um ano e meio antes de finalmente voltar pra casa. Mas estou saindo do assunto.
Agora estou ali no quarto em Leiden, sozinho com essa alemã que você vê na foto. Eu não lembro o nome dela - é uma das coisas que me irritam no passado. Uma das poucas coisas. Não lembro o nome dela. Passou dois dias em Leiden e tomamos chá e fumamos cigarros enrolados e andamos pela noite como se não houvesse o mundo. Então ela foi embora (eu tenho uma foto dos últimos minutos, o rosto dela num canto, a estação de trens ocupando o resto da foto, ela fuma um cigarro e sorri, me dá saudade). Ela foi embora e o quarto ficou vazio então, então, então eu reviro a bagunça em busca de qualquer coisa, qualquer objeto com qualidade de zahir, qualquer passatempo, qualquer janela pra outro lugar. Meu amigo não gosta de ler mas encontro uns livros empilhados num canto. Ele me explicaria depois que os ganhou de qualquer tia doida pra quem trabalhou pintando paredes. Um dos livros tem capa amarela com algumas fotos desconexas. Um velho fumando um cigarro. Um cara tocando saxofone. Crianças. Ainda o tenho aqui. É de uma frase desse livro que eu quero falar.
Depois de ler fui procurar qualquer informação sobre o livro e descobri que é um clássico americano. Mas eu não sabia disso então. Nunca tinha ouvido falar do livro ou do autor - Miguel Street, V.S. Naipaul. Eu sou junkie literário e era difícil encontrar coisas pra ler na Holanda. Eu conseguia manter uma conversação meia-boca em holandês, mas ler um livro é muido diferente. Ali um livro em inglês na casa de um cara que não falava inglês. Fiquei curioso, além do mais queria tirar minha cabeça da despedida de uma alemã que eu nem lembro o nome mas que me marcou de outras formas. Comecei a ler e era agradável. Em poucas páginas o livro me ganhou, acho que terminei de ler na mesma noite.
Tem esse personagem, tão encantador. O livro é contado por um garoto, falando do pessoal na sua vizinhança. Tem esse cara, certamente um dos personagens inventados, ele é um poeta fracassado que foi abandonado por uma mulher e vive sozinho numa casa bagunçada, um ídolo pro moleque/escritor que produziu aquele texto. E em qualquer parte do livro ele diz que está escrevendo um poema. Um poema pretensioso. Ele vai escrever apenas um verso a cada mês, ou a cada ano, eu não lembro. Minha memória é pouco interessada em detalhes. De qualquer forma, uma única frase a cada tanto tempo. E o garoto pergunta: "Qual foi seu último verso", o velho diz: "O passado é profundo".
(caralho, fico muito puto quando escrevo algo e não cabe nessa merda limitada de fotolog quando vou postar. não vou editar, mas simplesmente continuar nos comentários)
On November 01 2009
1 Views
fabiandrade
On 07/11/2009
Bonitona ela
E eu li tudo, mas nao me atrevo a comentar sobre, não teria nada mto inteligente pra dizer... hahaha
mas gostei mto, como sempre
ah, e eu sumi do fotolog pq fotolog ta falido... tds q eu conhecia q tinham pararam de postar, ninguem comenta mais... hahaha
mas sempre q vc posta eu venho aki ver =)
bjoooss
letgobeyond
On 03/11/2009
Hahahahahaha! Adorei seu comentário!
(Seu post não li, muito grande! :-P Mas gostei da foto)
Beeijos, beeijos!
bella_radar
On 03/11/2009
primeiramente, mt obrigada por falar que eu sou linda *--*, uehueh ' ee voce escreve mt bem , parabens :) ja pensou em escrever um livro, sei lá? acho que vale a pena investir nisso !
mas entao, nao importa quantas pessoas eu conheco, ou qualquer pessoa no mundo conhece. podem ser 3000, quantas forem, no maximo tem 3 verdadeiras, e isso é normal no dia de hoje.
tem que saber escolher as amizades né, heuhee enfim, hoje em dia o mundo tá foda, tudo por interesse . heuheue ' o mundo ta perdido -.-
e tá mt bom seu fotolog viu, como eu te disse, deveria ser escritora . haha ' :)
natasharocha_nx
On 02/11/2009
nossa que legal *_*
nao eh que viro moda mesmo?,agora todo mundo tem e acha um maximo todos os modelos KKK
blondie_x
On 02/11/2009
Nem me fale.
Há pouco tempo, descobri que a gente sente aquilo que realmente quer sentir.
Fatores externos não são absolutamente nada, não implicam em nada.
Mas o que a gente os transforma internamente sim.
Você se sente triste simplismente porque quer, é uma coisa da nossa cabeça. Mas quando a gente começa a sentir é tão forte, grita tão alto que nos tornamos vazios, um vacuo se instala e tudo é silêncio. Ninguém pode nos ouvir. E isso é a complexidade. Só.
Eu me sinto especialmente e instantaneamente triste. Quando me canso começo a pensar simplismente que não preciso disso, que melhor que isso. Que sou completa.
helter_skelter
On 02/11/2009
dois comentarios:
- acho que a tristeza é tão instensa quanto a alegria, ou a indiferença, inércia. Acontece que por ser incômoda, obviamente incomoda (desculpa a tautologia, tbm to bebada)
-"Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar"
fim
aquarelista
On 01/11/2009
Estar triste e só é muito complexo ao coração.
Virou um favorito sem querer.
valadares
On 01/11/2009
Então a tristeza continua buscando. É engraçado. Se a tristeza é germinada no vácuo e não consegue se apegar a nenhuma desculpa que lhe explique, fica-se triste porque se está triste, e é só
valadares
On 01/11/2009
Por exemplo, se eu fico triste. Geralmente a gente acha que tem um motivo pra estar triste. Eu já parei de acreditar nisso há muito tempo, mas algo continua buscando o sentido - a direção e a causa. Eu fico triste com certa frequência sem que exista qualquer motivo pra isso. Não sou um cara depressivo - não me defino assim nem tenho quaisquer construções semânticas nesse sentido. Nunca fui gótico nem metaleiro nem faço cara de coitado. Antes a tristeza quase sempre me enganava. Ela se agarrava a qualquer coisa e se escondia atrás dela. E eu pensava, porra, estou triste porque a alemã foi embora, mas isso é ridículo. Em breve meu raciocínio muito bem adestrado revelaria que na verdade eu estava menos triste por tê-la conhecido. Estava triste por qualquer outra coisa. Observar a neve me ensinou que tenho meus invernos internos, que simplesmente chegam e vão embora como as estações.
Ainda assim, minha tristeza idiota continua tentando se camuflar. Encontrar um motivo pra própria existência inexplicável.
Ontem, por exemplo, estive triste. Hoje só estou bêbado. Ontem estive triste e minha tristeza, em busca de algo pra abraçar, buscou o rostonavalha mais recente. Já não passava de um nome. Algo em mim queria tanto que aquela nome explicasse a modorra, mas era apenas um nome. Se eu limpava minha mente de palavras e apenas sentia, ela não queria dizer absolutamente nada. Na verdade, um pouco de alívio por me sentir desapegado daquilo. Nada.
valadares
On 01/11/2009
Ali naquele quartinho piramidal numa cidade pequena da Holanda eu já sabia que em breve a alemã seria apenas uma sombra. Não apenas ela, mas toda a minha vida naquele momento. Você viaja pra puta que pariu e começa uma vida completamente nova. Conhece pessoas completamente novas, pede uma cerveja no bar com palavras que há algum tempo você nem imaginava que existiam. Formei em comunicação, trabalhava de ourives. Eu sabia o tempo todo que ia voltar pra Minas Gerais e andar entre rostos familiares - sabia que ia andar na rua ouvindo português por todos os lados. Eu já sabia que vivia sobre o fio de uma navalha feita de fumaça e que um dia tudo aquilo seria uma impressão distante e inatingível como uma sombra que a gente sonha. O passado é profundo, aquilo ficou em mim. E essa coisa de que o que vivo agora será passado em alguns tiques do relógio.
A maioria das pessoas consegue viver bem sem imaginar um sentido ou intenção pras coisas. Depois de muito esforço consegui ser uma delas - sem apelar pra axé, sábado bêbado ou qualquer vulgaridade substituta pra uma vida interior. Eu tenho vida interior (ou pelo menos assim eu imagino) e já não preciso tanto de um sentido pra tudo. Ainda assim, por mais estúpido que pareça, algo em mim ainda busca sentido pra coisas idiotas que surgem como nuvens no céu e se desenvolvem como ondas no mar.
valadares
On 01/11/2009
"O passado é profundo" é uma daquelas frases óbvias super significativas que passam despercebidas em qualquer situação da vida. Algo como "Vamos todos morrer um dia". Não sei se foi algo com a o artifício de imaginar uma única frase por período, algo muito sentido, que deixou essa frase tão marcada em mim. Não sei se foi qualquer tipo de relação pessoal que me tocou - qualquer um de nós é tocado pelas coisas mais aleatórias e improváveis. Eu não sei. Acho que já escrevi "eu não sei" umas cinco vezes aí pra cima. Eu não sei. Já faz muito tempo que não tenho vergonha de não saber ou qualquer tipo de pretensão de saber tudo. Não importa. O passado é profundo.