Avatar valadares

Tenho assistido muitos filmes nos últimos dias, e tenho atribuído a eles essa tagarelice. Talvez não tenha nada a ver com os filmes, talvez sejam apenas outros sintomas apenas agora percebidos da minha deliberada e provavelmente insensata degeneração. De qualquer forma, se estou sozinho e desocupado minha mente tem tagarelado muito. Isso me incomoda. Essa correnteza ininterrupta de palavras e diálogos, histórias e comunicados aleatórios.

Há poucos anos atrás (que me parecem muitos mas que certamente pra você são poucos e pras estrelas, então, não passaram de bocejo) eu estava lendo Aldoux Huxley falando sobre silêncio interior. Nesse tempo eu era tão meticulosamente organizado e fascinado com essas coisas que posso te citar ainda um trecho exato: "Há três níveis de silêncio. O silêncio da boca, o silêncio da mente e o silêncio da vontade. Abstermo-nos das tagarelices ociosas é difícil. quietarmos o cacarejar da memória e da imaginação é mais
difícil ainda; mas o mais difícil de tudo é calar as vozes do desejo e da aversão no seio da vontade"

O cacarejar da minha memória e da minha imaginação está frenético. A frequência de atualização deste fotolog, os mails e scraps encalhados que encontro quando sento neste microfone me parecem evidência bastante pra concluir que meu silêncio da boca está tão controlado que meu hábito da fala está funcionando num sistema socialmente insuficiente. Minha cabeça, no entando, não pára de falar. E não é nada parecido com o que eu experimento quando estou vivendo dias de frenesi literário - quando a gente passa um dia, um mês, uma semana inventando frases e distribuindo ordem pelo caos, tentando descrever algo útil, algo verdadeiro ou algo simplesmente belo. Sinto que estou construindo, quando me encontro assim. Agora é diferente. Apenas tagarelice. Minha mente fala o tempo todo, como uma televisão.

O silêncio da vontade é enganoso. Eu poderia dizer com qualquer dose de orgulho que aprendi a baixar a cabeça. Entenda que não existe qualquer orgulho em simplesmente ser capaz de abaixar a cabeça - algo que os escravos voluntários e capachos e chutados arrebentados HUMILDES desprezíveis aprenderam com muito esmero. Meu orgulho vem de abaixar a cabeça por indiferença - pelo fato de que meu corpo e meus instintos apreenderam parte do que eu tanto tentei lhes ensinar durante esses anos; imenso vazio, e nada sagrado sobre a Terra. Nada PRECISA ser feito. Tudo está bem. Seja lá como for, tudo está bem. Não pretendo me explicar exaustivamente.

Então eu penso: "Minha vontade está em silêncio - tudo sob controle", mas é mentira. É verdade que minha vontade não está dizendo nada, mas eu sinto, ela está assobiando baixinho.

De qualquer forma, eu estava lendo Huxley há alguns anos, e pensando: "Caralho, será que algum dia eu vou conseguir isso?" Você não pensa: "Caralho, será que um dia eu vou conseguir isso, e depois abandonar por qualquer outra coisa?" Simplesmente não é o tipo de coisa que te passa pela cabeça antes de chegar lá.

Há alguns anos, mas nem tantos como estive falando, há dois anos atrás, pra dar um exemplo concreto, eu observava as coisas em silêncio. É claro que havia diálogos - mas quando eu não precisava ou queria dizer nada, eu estava em silêncio. No silêncio completo a gente escuta ainda o próprio coração. É isso que acontece no começo. Então uma buzina de carro, por exemplo, deixa de ser umabuzinadecarro - aquela idéia que a gente tem sobre ela, e que faz com que todas as buzinas de carro se transformem na mesma. A buzinadecarro se desprendo do símbolos - dos discursos - e passa a ser AQUELA buzina de carro, uma que você nunca vai ouvir exatamente do mesmo jeito, porque ela nunca vai se repetir de novo do mesmo jeito no universo. E isso acontece com as folhas, com as pedras, com os cavalos e espirros. Com os beijos e sorrisos e almoços. E porra, é muito bom.

Mas depois de um tempo, de tudo tão novo e tão único e tão imediato, eu sinto que estou perdendo contato. Já faz um tempo que acho os monges uns covardes egoístas. É tão fácil fugir. Claro, pra imensa maioria deles deve ter sido muito difícil chegar no portão, mas uma vez que você está lá, é tão fácil simplesmente fugir. E ficar observando o mundo de cima, lá da sua nuvenzinha. Mas é sozinho pra caralho. Quero viver entre meus irmãos. Como eles encostar no barro. Encontrar uma nuvem que não seja solitária, que possa abrigar muitos - por enquanto apenas buscando na lama.

Queria um pouco de silêncio.




On October 28 2009 1 Views



Avatar je_sombre

je_sombre On 29/10/2009

Lugar bonito, eu gosto muito de vermelho com verde, quase que precisamente nesses tons. Quando eu era mais nova tinha tirado umas fotos, com maçãs vermelhas em superfície verde e vice-versa. Este lugar aí me lembrou as fotos, me lembrou do dia em que peguei minha camerazinha fulera e, me achando, coloquei uma luminária do lado pra 'melhorar a luz'. As fotos ficaram uma merda, mas eu adorei.
E este fantasma está me encarando e me pareceu hostil. Han.

Isso que você falou da buzina me acontecia direto, ao meu jeito e em partes, eu penso, mas tinha altas vezes que acontecia de eu me pegar admirando coisas bobas por elas serem únicas. Quando eu ainda estava em Belo Horizonte eu gostava de observar o movimento. Eu andava muito pelo centro, nos dias que eu ia pra faculdade eu descia no centro e pegava outro ônibus e costumava fazer o caminho de volta lá pelas 6 da tarde. Eu ficava de bobeira esperando um ônibus mais vazio até umas 7 e meia, 8 horas da noite, e ficava reparando nas pessoas, no que elas estavam fazendo, indo pra onde, pensando o que, o que estariam vivendo. Meio stalker, assim, fazer isso todo dia, mas fazia o tempo passar mais rápido.

Uau, não sei pq comecei a falar essas coisas aqui, acho que eu não fiz realmente um comentário sobre o seu post heuheuhe sry


:)


Avatar swampeed

swampeed On 29/10/2009

gostei do texto :)




valadares

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valadares

male - 26/04/2012 (0 years old)
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Belo Horizonte, Minas Gerais, Brazil




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