Avatar rafaelpereira

O NASCIMENTO DE UM CICLISTA

Eram anos sem pedalar. Pagar foi apenas um passo burocrático. Com ela nas mãos, todo o meu receio veio à tona. Só eu e ela. Ir de Laranjeiras até a Tijuca, nas primeiras pedaladas em anos, era quase um capricho.

Tá. Aquele ditado que fala sobre quem sabe andar de bicicleta está certo. Não tem erro. Mas não se tratava apenas de ter aprendido a andar de bicicleta ou não. Era mais. Era desbravar o trânsito do Rio. De um terceiro ponto de vista. Vi de dentro do carro. Vi como pedestre (muito). Agora, uma nova fronteira precisava ser transpassada.

No que imagino ter sido o primeiro quilômetro, fui na contramão. Sabia que existe uma lei para ciclistas, semelhante às leis de trânsito? O ciclista não pode andar pela calçada. Tem que andar apenas pela rua. Pelo corredor esquerdo – o contrário do dos ônibus – de preferência. Calçada é para os pedestres. E eu era pedestre há até pouquíssimo tempo. Uns minutos. Andar na calçada, e ao mesmo tempo na contramão, era uma infração gravíssima. Ainda bem que ninguém sabe disso. E eu fui bem devagar. Juro. Não atropelei nenhum velhinho.

E foi por pouco tempo. Logo, já tinha ganhado o Largo do Machado, e estava na Praia do Flamengo. Com sua bela ciclovia de duas pistas. Foi bom eu ter ido por lá. Deu para testar minhas seis marchas – tudo funcionou perfeitamente – e os demais probleminhas que poderia ter minha nova amiga.

O maior problema foi o banco.

No começo do percurso, o banco mostrou-se muito baixo. E quase pude escutar meu amigo, especialista em bicicletas, dizer: “Sair da loja com a bicicleta desregulada é o mesmo que começar um relacionamento com o pé esquerdo”. Tá... não foi tão grave assim. Mas foi um contratempo.

O banco estava baixo demais. A cada pedalada, percebia que meu joelho quase fechava ao máximo. E isso não pode acontecer. Perdia boa parte da potência, forçava o joelho, e coisa e tal. Quando percebi isso, e já estava a procura de um posto de gasolina, o banco virou. Isso mesmo. A parte de trás do banco foi quase onde estava o bagageiro. Minha demanda, outro quase capricho, tinha se tornado urgente.

Um posto, quase na Glória.

O que, me disseram, era o mecânico do posto, tinha uma preguiça misturada com descaso que inspirava irritação na melhor das almas. Não tenho lá uma alma muito boa. Ele acabou achando a chave em sua bolsa e me ajudou. Botou o banco no prumo e colocou-o alto, o ajuste que me incomodou primeiro. Ganhou três reais. Não merecia nada. Continuei minha jornada.

Passei pela “Glória dos travestis”, entrei na Lapa por uma ruela desimportante. Pronto. O banco virou de novo. Pelo menos estava na minha altura. Mas virado, com a parte fina para cima, não há como sentar. Talvez alguém goste daquela posição. Posso garantir que não é o meu caso.

Achei um estacionamento xexelento, não dava o menor crédito. Lá dentro, um jovem estava mexendo em um Gurgel, aquele carrinho brasileiro feito de fibra de vidro em vez de metal. Perguntei por uma ferramenta, chave de rosca, e ele disse: “Procura aí”. Apontou uma caixa de ferramentas. Pronto. Outro inútil.

Eu juro. Achei todos os tamanhos de chave, menos a que eu precisava. Tinha uma coleção inteira nas mãos. Menores e maiores. Daí, o moço do Gurgel se preocupou: “Cara... deve ser a chave treze... eu achei que estava aí”. Demorei, mas achei, em forma de ele (a letra). Fiquei mais satisfeito. Arrumei, sob os olhares curiosos dele. Agradeci. “Que isso, cara. De nada. Lava as mãos ali naquela bica”. Merecia mais do que três reais. Mas estava tão entretido com seu Gurgel que não ganhou nada.

Dali em diante, tive meu primeiro desafio real: Andar nas ruas engarrafadas da cidade pela mão que me cabia. A do trânsito. Da Lapa, fui em direção ao Estácio.

No começo, tudo bem. A não ser por uns carros que param à esquerda, atrapalhando a nós, ciclistas.

Não estava lá muito seguro, até encontrar à minha frente um colega de duas rodas. Era o moço dos Correios. Saca os caras dos Correios? Aqueles caras que levam os e-mails de papel nas nossas casas.

Então. Ele deve fazer isso todos os dias. E eu fui atrás dele. O moço dos Correios, acredite, passeia pelas ruas. Não dá a mínima para nada. Nem os carros e caminhões parados à esquerda parecem incomodá-lo. Fiquei atrás dele um tempo, em baixa velocidade, só aprendendo o movimento das ruas, seus movimentos. Até que ele se foi. Acelerei e me senti o ciclista mais seguro do mundo. E ele nem tem idéia de o quanto me ajudou.

Dali para a Tijuca foi um pulo.

Aproveitei, antes de casa, para parar no supermercado. Um luxo, para mostrar que eu estava seguro. Parei a bicicleta, coloquei a tranca recém adquirida, comprei, tirei a tranca e fui para casa como um rei.

Hoje eu virei um ciclista urbano.




On April 06 2007 4 Views



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/xxjunior On 20/04/2007

Belo relato! Se interessar em publicá-lo no meu site, será bem-vindo.<A HREF="http://www.trilhaecia.com.br/" TARGET=_top>http://www.trilhaecia.com.br/</A>Abraço.


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Ícaro Brito On 11/04/2007

Seja bem vindo ao clube dos que vêem a cidade real e não como uma televisão como acontece no carro.abraços de Minaswww.mountainbikebh.com.br/blog


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João Guilherme On 09/04/2007

Emocionou o relato! ehheheRi pacas tb!Seja bem vindo e que a madre padroeira das bicicletas esteja sempre conosco e com os carteiros!


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blue_bird_ahhh On 09/04/2007

Que dia?Só marcar!


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aywygi On 09/04/2007

meu lindo... que delícia a sua aventura transformada em crônica! Repito o que o Dani falou... que vontade de adquirir uma bike...beijo com sodadis!! Duas semanas sem te ver é muito!


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dpino On 09/04/2007

Cara só de ler me deu vontade de tirar minha bicicleta do armário....rssParabéns por sua nova conquista! Fico muito feliz!Um enorme beijo...Ahhhh seu sobrinho(a) está mandando um beijo...


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x_petit_x On 08/04/2007

Salve os carteiros.... HhahahahahhahahahaBoa sorte com seu novbo meio de transporte! :):*


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anandroide On 07/04/2007

bicileta no planalto? nem pensar!mas eu bem q queria! =)saudade sô!


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belawn On 06/04/2007

A êê bicletinha nova!!!!!Parabéns amiguinho que ela te traga muitas alegrias que nem a Pink Punk me trouxe..Lembra dela? Minha tia deu para as crianças de Vera Cruz...Beijos***


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piscest On 06/04/2007

Desculpe a preguiça pra ler o texto... é o cansaço...rsObrigado pela visita!!


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/coisafeiaaa On 06/04/2007

vizinho!tudo bem?


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zionflower On 06/04/2007

esse azul ta mto lindo.


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Carol_AOX On 06/04/2007

"Saca os caras dos Correios? Aqueles caras que levam os e-mails de papel nas nossas casas."Não tem jeito, eu sou obrigada a dizer o mesmo que a Mari: você é um poema!Parabéns pela bicicleta nova, viu?


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fanfarragirl On 06/04/2007

Que linda!:)


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_maricotinha_ On 06/04/2007

rafa .. vocé é um poema!


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