O Jardim das Horas e O Quarto das Cinzas
Por Paulo Passos
Leo Mackellene, meu amigo professor e escritor, foi quem me levou para o Jardim: o Jardim das Horas. A banda, formada por Laya Lopes no vocal, Carlos Eduardo Gadelha na guitarra/programação/violão, e Raphael Gadelha no baixo, não obedece às velhas divisões por gênero que cismam em aprisionar os artistas em camisas de força estilísticas. Ao ouvir a banda “in natura” e no CD, percebi que os temas existenciais misturam-se à natureza, sentimentos e sensações. Laya possui uma voz com textura, hora de mar, hora de tecido fino, hora de beijo... A fusão é (des)construída por Carlos, virtuoso instrumentista, companheiro da cantora no palco e no backstage. Carlos é responsável pela criação dos sons, idílicos ou que lembram sonhos auditivos. São eles os jardineiros.
O nome da banda foi plantado por Leo. O Jardim das Horas é um de seus poemas. Outrora, a banda respondia por “O Quarto das Cinzas”, referência à substância que entupia os cinzeiros no cômodo em que a banda ensaiava. Nas palavras de Laya, “o lugar da transformação”. A banda mudou de nome, mas “O Quarto das Cinzas” batizou o primeiro CD do trio.
Depois de ser iniciado no show do grupo, há menos de um mês, em Fortaleza, ouvi o CD por eles presenteado (muito obrigado, amigos!) e, quase naturalmente, procurei relações e rupturas entre a sonoridade da banda e os significados de seus nomes, de batismo e rebatismo.
O Quarto das Cinzas e O Jardim das Horas mantêm uma relação quase exata. Ambos os nomes remetem ao tempo e ao espaço, elementos intangíveis onde repousam a linguagem e a narrativa, onde se estabelecem relações e sentimentos. Quarto e Jardim são espaços, ambos construídos. Entretanto, o primeiro é artificial, criado pelo homem para abrigar, com estrutura sólida e concreta. Jardim, ao contrário, é outro espaço, este constituído por elementos naturais e aberto, para expor a vida. Cinzas e Horas demarcam o tempo. O primeiro, uma medida natural, fruto da combustão e transformação das substâncias, modificando a natureza. As horas são artificiais, criadas pelo homem como convenção da perenidade imutável; a hora não é substância que se transforma, mas trabalho perene e constante, fora da natureza.
Quarto é lugar de privacidade. Sua imagem nos remete à noite, ao sono, ao desprendimento. Espaço de leituras antes de dormir, de filmes na madrugada e de insônias incontestes, do devir chuva que nos leva a dormir melhor. O jardim, ao contrário, no imaginário coletivo nos é apresentado (e isso os pintores Expressionistas souberam fazer muito bem) sempre à luz do dia, nas manhãs ensolaradas.
O tempo das cinzas é o tempo da subjetividade da substância. Não espere que o processo de carbonização de um pedaço de pau participe de um tempo absoluto; ao contrário, é sempre relativo à subjetividade do próprio toco. O tempo da produção das cinzas é proporcional ao tamanho da madeira, à sua solides e à secura do material. É o tempo que diz respeito ao artefato. O tempo das horas é medida convencional, que determina uma hierarquia superior em relação aos minutos e segundos, todos esses imateriais. Tais tempos não dependem a relação com outras substâncias para existir. Eles simplesmente existem, impessoais e absolutos.
A passagem do Quarto para o Jardim, e das Cinzas para as Horas dá-se em uma inversão simétrica: o quarto, artificial, passa a ser o jardim, natural; em processo análogo, as cinzas, da ordem da natureza, cedem espaço (literalmente?) para as horas, artificiais. A mudança de nomes dá-se, então, em processo dicotômico na capa do CD, em que ambas se espelham...
Portanto, há uma simetria inversa na passagem do Quarto das Cinzas para o Jardim das Horas. Uma simetria que mostra e esconde, que nega e afirma. Vejamos: a passagem do quarto para o jardim revela a mudança do “dentro” para o “fora”, do “privado” para o “público”, da “noite” para o “dia”, do “artificial” para o “natural”; de forma inversa, a passagem das cinzas para as horas nos apresenta a ideia da “substância” para o “intangível”, do tempo “imponderável” para o tempo “absoluto”, ou, ainda, da “cultura” para a “natureza”, do “corpo” para a “máquina”. O tempo é força e valor de medida.
O Quarto das Cinzas joga com o significado de dentro X substância; privado X imponderável; noite X cultura; artificial X corpo. Já o Jardim das Horas propõe, ao contrário, fora X Intangível; público X absoluto; dia X natureza; natural X máquina. Podemos misturar, ainda, os jogos de palavras, respeitando sempre as redes de acepções e as dicotomias, e notaremos que sempre serão propostas oposições. Tal trabalho poderá começar com a inversão dos nomes da Banda: Quarto das Horas e Jardim das Cinzas...
Será possível aplicar a matriz estrutural para tentar buscar tais relações com a sonoridade? É possível partir de uma matriz semiológica para outra? ...
e continua aqui: http://www.myspace.com/ojardimdashoras/blog
On September 09 2010
8 Views
calistoga_
On 28/10/2010
CALISTOGA (RN) EM FORTALEZA
+ Inerve, Amsterdã e The Coolers.
The Pub - Sexta, dia 29/10 - 22h
Myspace: [ http://www.myspace.com/bandacalistoga ]
Clipe: [ http://www.youtube.com/watch?v=EKejCp1sJec ]
diegoplastique
On 09/09/2010
Sei que estou bastante contente que já vi 2 shows de vcs esse semestre!
elmartindeitu
On 09/09/2010
Che vos te copas con 3 o 4 firmitias mas ffs ? :_
Dale que devuelbo todo y agrego al toqe
Te espero :$ , un beso y suerte che !