Lá fora começava um temporal, desses capazes de fazer o dia virar noite. Tudo negro, tudo pólvora.
A janela e suas cortinas caramelo balançavam no ritmo do vento, não podia ser diferente. Estranho era aquele ventiladorzinho no canto daquela sala velha. Todos os móveis velhos, o chão opaco aclamava por brilho. Que brilho? Casa opaca, de pessoas opacas.
E Helena estava no outro canto da sala, sentada no chão porque sua poltrona preferida foi para a manutenção. Ela sentada no chão, as mãos cruzadas junto ao seu corpo esguio vestindo sua camisola de cetim, o único luxo daquela casa era sua camisola de cetim (velha).
O vento uivava mais, Helena quase sufocava por querer trazer seus braços e mãos e pernas junto ao tronco, não era uma imagem ruim, poderia ser uma bela foto: a sala velha, vazia, a cortina balançando e uma moça opaca no canto da sala tentando se esconder do mundo. (mas ali ela estava tão exposta). Tudo era tão opaco.
Ela estava ali porque horas atrás seu vazo de cristal opaco havia quebrado, num descuido dela, num descuido dele tudo se perdeu.
Seu marido chegou em casa um pouco mais cedo e Helena, pobre Helena, não teve tempo de preparar o jantar. O marido, um comum bancário cheio de manias irritantes não gostava de fugir as regras. Helena até tentou insinuar que, ele chegando mais cedo, poderiam aproveitar mais aquela noite de fortes ventanias. Mas ele não entendeu.
E enquanto ela dizia as palavras pólvoras, segurava o vazo de cristal opaco e também virava seu rosto para o rosto de Carlos. Mas os olhos de Carlos não entendiam ou fingiam não entender, não sei. Homem burro, quantas vezes ela pensou assim.
Um raio. Um trovão. O vazo opaco no chão. Um segundo de silêncio. Carlos, achando tudo aquilo tão patético e antes de perceber as nuvens negras se formando, pegou as chaves do carro e saiu. Helena, boba, chorou. E agora ela se encontra assim: uma moça opaca no canto da sala tentando se esconder do mundo, mas ali ela estava tão exposta. Tudo era tão opaco.
Antes de pegar no sono aconteceu o que acontece com todas as pessoas antes de dormir uma seqüência de pensamentos inacabados e interrompidos por outros e mais outros, até que o sono vem seu último pensamento era dormir ali e amanhecer em outro lugar. Quanta tolice.
(Helena/1894)
On September 12 2009
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