Sinceramente, nunca vi uma banda ser tão atacada pelo que nunca foi. Por infeliz coincidência escolheram o nome de uma música de um dos grupos prediletos até então, o Blink 182, o mesmo nome que após daria nome a uma moda que nada tem haver com nossos 4 amigos.
Enfim, venho de prestar minha homenagem e deixar minha indignação no site da MTV.
Homenagem a um amigo que se foi. Uma pessoa que conseguiu o rótulo de amigo por merecimento.
Não me lembro quando, o Flash, até então simplesmente, meu irmão, chegou com o cd de mais uma banda punk, que eu rotulei de punk pop. Afinal passava longe de Pistols, Ramones ou Clash. Uma espécie de Bad Religion mais leve, e com letras não poltizadas: a Emo.
Ainda não carregavam o "ponto" no nome, e assim como o Forfun e outras bandas as quais fui apresentado pelo maninho, tinha um vocal que não me agradava muito.
Se eu sempre fiz diferença do Ramirez para as demais, pela proposta, o Emo talvez por conhecimento musical meu (sim, deixo a modéstia de lado, mas afirmo e saberão porquê) tinha meu respeito por serem os pioneiros de um movimento que ainda estava pra surgir. Nada de movimento emo, como podem pensar. Um movimento de punk pop como o próprio Blink 182, mas mais acariocado.
O Forfun já era nome batido em escolas, matinês e faculdades, mas no entanto havia sido da boca do Digão (Raimundos) que tinha ouvido o nome Emo pela primeira vez. Logo eu que nunca gostei muito de Raimundos...
Enfim, após sucessivos convites do meu irmão, resolvi aceitar um para o show do Emo. Digo mais: aceite-o porque haveria Ramirez no mesmo dia.
O resultado é que o show foi impactante, completo, enxuto e, mesmo assim criticado pelo Daniel (baterista do Emo) porque ele sabia que a banda podia fazer melhor que aquilo. Diante do show que me embasbacou, quase o repreendi, já na Padoca, lugar que virou ponto habitual das bandas da Barra e arredores. Mas ele estava certo.
Emo, ou Emoponto sempre esteve degraus acima das outras bandas da época, por competência do Tuírow, que escrevia letras limpas, simples e diretas, Daniel, excelente batera e mais que incentivador da banda, o líder da Emo, o Juca, com sua performance no baixo e no palco e o outro guitarrista, o que preenchia todos os espaços com detalhes sutis e preciosos, backings perfeitos... Marcelão.
De uma sutileza e timidez ímpares, tanto no palco quanto nas badalações pré e pós shows, foi o cara que conseguiu me fazer respeitar a cena a qual pertenciam, ouvir com mais atenção que eram músicos de verdade que estavam ali tocando e que muito eu poderia agregar a mim e à minha banda, prestando atenção no que dizia e fazia.
O resultado disso é que, se tivemos o Griva como responsável oficial pela gravação do nosso vitorioso EP "A melhor amiga" em 2004 (vitorioso sim, é exatamente como me sinto quando o escuto ainda hoje), por outro lado, o Marcelão sempre foi uma espécie de mentor, guru, extra-oficial da banda que era incessantemente consultado por mim e pelo meu irmão.
Acho que ele captou perfeitamente o som que eu queria tirar naquele momento: algo entre Teenage Fanclub e Weezer, tendendo mais para o primeiro. Acaba que o Griva nos levou para algo mais entre Weezer e Beatles, o que é claro que também nos agradou demais.
Mesmo assim, a cada show nosso que ele ia ver, eu lhe perguntava como havia sido o show, quais detalhes chamaram a atenção dele. Enfim, um cara capaz de perceber TUDO o que se passava dentro de um show e muito mais.
Acho que o Marcelão poderia ser encaixado no termo "artista incompreendido", pelo resto ou por ele mesmo.
O período em que a Emoponto acabou e ele trabalhou no BPM só me comprovou isso: um cara talentosíssimo que talvez não acreditasse muito no próprio talento, por modéstia, por timidez, não sei.
Quem teve acesso aos bastidores da Emoponto, do BPM e dos projetos musicais em que o Marcelão esteve presente concordaria com o que eu digo: ele podia fazer qualquer coisa dentro do meio musical.
Fazer um som sem compromisso com ele é no mínimo se libertar de qualquer rótulo e procurar o inatingível. E o pior é ver nestas situações extremas em que eu me exigia prestar atenção ao que fazia, ao mesmo tempo em que nada sabia daquela música expontânea que fazíamos, ele estava lá parecendo estar consciente de tudo o que se passava. Parecia antever cada passo meu, do Flash, do Tuírow, do Moikano, do Jorge.
Eis que o ano de 2009 resolve levá-lo para outro lugar, um lugar que nós nada podemos afirmar, pois o ser humano é pequeno demais para saber de tudo. Mas tudo o que sei é que o Marcelão sabia mais do que eu.
Aqui na França, onde moro agora, não tem Padoca, não tem aquelas conversas depois dos shows, nem os "ensaios" de música expontânea no BPM.
Aqui no mundo não tem mais Marcelão, suas histórias contadas de um jeito único...
... Resta só muita saudade de quem pode conhecer este cara.
A Lunar 4 se despede de um cara genial, bacana e amigo.
Espero que você esteja bem, cara..
On November 01 2009
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