Abertura
Dorme minha pequena criança, no seu leito de sabedoria. Antes inocente, pequena criança, seu sorriso colhia as palmas da minha alma, que de ver sua ignorância, regozijava-se. Que antes nada soubesse, que não percebesse o lixo que descola das beiradas do mundo, sujando a água da chuva, fazendo feder os ventos. Que permanecesse pálida, sem o vermelho do sangue na cara, ferida da vergonha.
Mas se hoje sabes, sei que já não dormes tão bem.
Dorme, ainda que seu sono se quebre em pesadelos carmesins. Não lamente em seu sono, o que já fez acordado, e o que fará outra vez ao acordar. A necessidade de conhecer é a mão que lhe vira a página. Não se culpe, não a culpe, não se cubra de arrependimentos. Deixe que em minha lembrança seu limpo sorriso de outrora também se apague.
Dorme, que do silêncio do sono há de brotar alguma ligeira verdade, ressonando no seu respirar. Sei que em algum instante irá aceitar o saudosismo que lhe imperará os dias sem esperança. E quando acordar, pequena criança, do sono irrequieto, terá sempre, na face repuxada, novo estigma a lhe inflamar a alma.
Primeira Parte
Lira... Murmura um vento, que de rajada passa por mim. Vira a folha seca, página de conhecimento, mostra-me o medo, o desejo, a raiva, um pseudo-amor e a contenção de todos esses sentimentos. Eu acordo do sono solto, pelo meu nome, que ouço, ainda, no barulho das paginas.
Aspiro um ar de palavras novas, que me explicam da dor que sinto quando respiro. E Lira, como me chamam os sopros de vento, começa a contar sua história. A primeira parte de uma longa história.
E era eu, apenas um alguém de livro aberto. Não imaginava nas linhas, e na quantidade enorme de entrelinhas, encontrar explicações sobre o ser, que não acreditava ser.
Vi-me humano e frágil, flexível ao saber que descobria habitar em cada junção de palavras. Nas mais perfeitas palavras.
Era, ao menos, as mais perfeitas palavras que eu conhecia. E adiante foi me entendendo em rimas, sentimentos e ações que nem eram minhas. Era escravo da palavra escrita que eu lia. Apertado entre as páginas do livro da vida.
Então, o que não esperava, aconteceu.
Eu vi.
Compreendi.
Aceitei as palavras que me vinham.
E perdi minha inocência.
Segunda Parte
A dor que atravessou minhas entranhas quis me levar daquele pesadelo. Queria, algo em mim, que eu nada soubesse. Mas como esquecer? Como fugir da dor, se ela lhe cobre a face, enche-lhe os pensamentos.
Tentei discernir o que me era útil, acostumar-me à dor da realidade.
Tentei escapar com meu olhar das paginas.
Afastei-me do livro, para voltar às paginas vazias de palavras.
Fugindo da dor encontrei o prazer... presente no mesmo livro.
Terceira e Última Parte
Abri os espaços vazios para mim. Dele fiz carne de minha carne.
Os caminhos que conheci, jamais poderia esquecer.
Joguei-me nos espaços, cega de desejo.
E fui ficando sem forças.
Viciada no que entendia. Ou achava que entendia.
Viciada.
Viciada.
Viciada.
E de repente perdida.
E desencantada.
E com medo do escuro.
Mas o escuro indefectívelmente veio.
Uma escuridão diferente. E eu chorei meu adeus.
As paginas encerradas de um livro.
>>>Fotos: Suelen Rocha
Materiais Usados:
Livro Anna Karênina de Tolstoi, pasta dágua, batom vermelho e garota maluca.
Parte Inicial: <A HREF="http://ubbibr.fotolog.com/lee_magrock/?pid=20039643" TARGET=_top>http://ubbibr.fotolog.com/lee_magrock/?pid=20039643</A>
On October 16 2006
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