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Poética do futebol.

O futebol praticado no Brasil está em frangalhos. Longe de ter a beleza de outrora, a bola que rola nos gramados tupiniquins foi contaminada pelo chamado “futebol moderno”.
Filho da tática, da frieza e da razão, o "futebol moderno" não precisa de muitos craques. Um bom esquema tático é a resposta pra tudo. Aqueles que brilham sob os holofotes da imprensa não são os jogadores: são os técnicos.

Não há mais espaço pra alegria do futebol bem jogado, da malandragem de um drible entre as pernas, de uma embaixada; há de se pedir licença pra aplicar um lençol, pro Pato levar a bola no ombro; os muitos coelhos do futebol brasileiro insistem em parar os dribles da Foca (Focas e Patos são raros no futebol brasileiro e mundial. Os coelhos existem aos montes).
Mas futebol é jogo de homem. Não tem essa de ficar “fazendo palhaçadinha”. Afinal, a tática taí pra isso: é preciso parar o lance com falta, ficar fechadinho lá atrás e jogar no contra-ataque. Os técnicos mandam, os jogadores executam, dentro do previsto. Não é Laranja Mecânica nem Máquina Tricolor; é um equipamento eletrônico, rígido, exato, relógio suíço, um 3-5-2 cauteloso. Nada de jogar com três atacantes. É loucura, impensável, no futebol de hoje. Armemos um esquema cauteloso, joguemos como manda o professor, e tudo certo.

Por isso que satisfaz à imprensa o jogador robô, que, quando perguntado sobre o jogo, limita-se a responder automaticamente que “jogamo bem, seguimo as instrução do professor, e o importante foi levá os três ponto p’a casa”.
A imprensa não quer irreverência, não quer alguém que fuja aos padrões, não quer alegria nem imprevisibilidade.

Por isso que a Beija-Flor ganhou o carnaval.

E é por isso que acham um absurdo o Thiago Neves responder o que pensa no Arena SporTV.
- Quem você prefere enfrentar na final, caso o Fluminense passe pelo Botafogo?
- Ah, eu acho que o Flamengo. É mais bonito, FlaxFlu, clássico tradicional, fica mais gostoso jogar.
Oh! Absurdo dos absurdos! Como é que pode, um jogador manifestar opinião própria em rede nacional?! O certo era “com muito respeito às duas equipes, vamo enfrentar quem vié; mas antes temo que pensá no Botafogo, com muita humildade, fé em Deus", coisaetal.
E – blasfêmia! – ele admite que jogou muito! É um fanfarrão, um convencido, um moleque arrogante! Deveria ter dito “com muita humildade, tenho é que agradecer meus companheiro de equipe e ao professor Renato".
O escambau. Thiago Neves ganhou sozinho do Flamengo.
Saber reconhecer o próprio valor é muito mais importante do que fingir essa diplomática “humildade”.
Dançar uma dança irreverente não é ato de hostilidade, é alegria de fazer gol.
Antes um novato ligeiramente arrogante, mas com personalidade e alegria de jogar bola, do que um robô que “segue as instrução do professor”. Que segue a tática fria, lógica, metódica, fleumática.

Copa de 58. Brasil e Áustria, 1ª rodada.
“Cinco minutos do segundo tempo, Nílton Santos recebe de Bellini em sua zona de defesa e corre para o campo adversário.
‘Volta, Nílton!’, grita Feola (o técnico).
O lateral continua correndo e ultrapassando seus adversários. Já está quase na intermediária austríaca.
‘Volta, Nílton!’, insiste Feola.
Nílton Santos finge não ouvir. Agora ele já está na entrada da área austríaca.
‘Volta, Nílton!’, esbraveja, quase apoplético, o gordo treinador.
Da entrada da área, Nílton chuta com maestria e vence o goleiro Szanwald. O público delira com o gol.
‘Boa, Nílton”’.

Em determinado jogo-treino preparatório para a Copa de 58, Garrincha pega a bola no campo de defesa e sai driblando praticamente todo o time adversário. Dribla o goleiro e fica frente a frente com a meta adversária. Já se ouvem os gritos de gol da comissão técnica à beira do gramado quando Garrincha repentinamente pára. Volta, dribla mais um jogador, e aí sim marca o gol.
“Porra, Garrincha! Tu é maluco?? Por que não fez o gol logo?!".
“É que tinha faltado driblar o número 6”.

Estou farto dessa tática aprisionadora, dessa tática bem comportada, do discurso de jogador simplório com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Professor.
Quero antes o lirismo dos loucos, o lirismo dos bêbedos - o lirismo difícil e pungente dos bêbedos -, o lirismo dos clowns de Shakespeare; a irreverência dum Garrincha, a desobediência dum Nílton Santos, a ousadia dum Pato, da Foca, a molecagem dum Robinho e dum Ronaldinho Gaúcho.

Não quero mais saber do futebol que não é libertação.




On February 12 2008 2 Views



Avatar rodrigoparadella

rodrigoparadella On 13/02/2008

Uma coisa me chamou mais a atenção nessa história toda do que a "provocação" do Thiago Neves. Me impressiono cada vez mais como hoje em dia toda e qualquer provocação, desrespeitosa ou não, gera discussões entre aqueles que acompanham o futebol brasileiro.

O primeiro motivo que achei para este comportamento é o respeito exagerado que existe entre aqueles que fazem o nosso futebol. Diretores, jogadores e técnicos parecem não confiar no seu talento ou competência, por isso evitam provocar os adversários por ter medo de que suas palavras sirvam de motivação para eles. Um dos principais motivos para esse medo exagerado é a ausência de grandes jogadores no futebol brasileiro, o que gerou uma certa mediocridade que é comum a todos e que faz com que os jogos sejam cada vez mais equilibrados. Esse equilíbrio gera um respeito exagerado, que se transforma em medo em muitas ocasiões.

Esse medo faz com que sejam utilizados esquemas defensivos, jogadores brucutus, declarações vazias e etc. Hoje, ao invés de jogarem pra ganhar, os grandes clubes jogam para NÃO PERDER, com algumas poucas exceções.


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james_barrie On 13/02/2008

Quanto ao culto a jogadores robôs, isso é uma coisa muito mais da mídia em geral do que dos técnicos. É de fora pra dentro.
A tática amarrada, essa é de dentro pra fora. A mídia reproduz e respalda as merdas que fazem Leões da vida.
Eu até escrevi isso, numa comparação entre os atuais técnicos dos grandes de São Paulo e os grandes do Rio. Mais uma vez, o limite de caracteres me traiu.

Concordo inteiramente no que você diz sobre o Cuca. Os tão festejados técnicos paulistas (fora o Luxemburgo, que é foda apesar de ser um escroto babaca chato pra caralho), ditos destaques do aclamado campeonato paulista (que, apesar de ser mais disputado em termos de pontos, é tão ou mais chato que as primeiras fases das Taças Guanabara e Rio), esses técnicos reproduzem essa tática amarrada do futebol moderno, e não a tática libertadora de uma Laranja Mecânica.

Em tempo: nada mais chato e sem emoção que pontos corridos. Como diz o Renato Maurício Prado: esses técnicos paulistas tem "cara de pontos corridos".


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james_barrie On 13/02/2008

Rodrigo, eu ia escrever mais um monte de coisa, mas o limite de caracteres não me permitiu.
Talvez até mencionasse o Túlio... hahahaha
E eu enxergo alegria no Thiago Neves. Não o acho mascarado, ainda que, se não cuidarem do garoto, ele possa vir a se tornar, pelo jeito que vem agindo.
Mas, por enquanto, acho que é mais alegria de jogar bola e de se dar conta que tá melhorando e em vias de se tornar craque (e, mais ainda, se dar conta de que tem muita gente reconhecendo isso também).

E, Felipe, eu sei da importância da tática, lógico. Mas o que eu quis passar é que ela não deve ser um esquema fechado que aprisiona a habilidade dos jogadores. Um posicionamento tático deve ser elaborado tendo em vista os jogadores que se tem à disposição, e não o contrário.
Além disso, acho que você sabe tão bem quanto eu que, hoje em dia, os tempos de Laranja Mecânica já se foram, salvo exceções. O chamado futebol moderno tem como principais características os tais jogadores brucutus e os esquemas retranqueiros de que falei.
E é justamente nos (não por acaso) frios gramados europeus que isso se faz mais evidente. Em jogos do Milan, basta o time ficar à frente no placar pro Ancelloti tacar um Emerson e fechar a defesa. Em tempo: o Milan é o atual campeão do mundo.


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james_barrie On 12/02/2008

(cont.)

Cuca, do Botafogo, é um ótimo exemplo de treinador ousado. Armou um 3-4-3 incomum no Brasil, tem conceitos novos e ofensivos. O esquema que ele arma favorece jogadores mais técnicos, enquanto outro treinador acharia melhor superlotar o meio campo. A questão, na verdade, é muito mais de filosofia de jogo do que propriamente um culto a jogadores robôs.

Sim, existe beleza nos esquemas táticos, nas armadilhas preparadas pelos técnicos, na inversão de posição que resolve um jogo truncado(vide Clodoaldo, do Brasil, na Copa de 1970). Existe beleza nos três volantes postados ali só para os laterais, muito mais habilidosos, terem total liberdade. Isso exige sensibilidade, inteligência, frieza. Depende do tipo de jogador à disposição. Formar um bom esquema tático é tão difícil quanto um drible entre as pernas, um passe de trivela, um lençol. Só não é tão reconhecido, ainda, pelos românticos, saudosos de um tipo de futebol que agora dá o ar de sua graça em gramados frios e europeus.


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james_barrie On 12/02/2008

por Felipe

O que seria do futebol sem a rivalidade? Mais especificamente, o que seria do futebol BRASILEIRO sem a rivalidade? Ela é o último resquício da malandragem, do romancismo, da beleza, do jeito brasileiro de se jogar futebol, que ainda está presente nos gramados tupiniquins.

Nas próprias categorias de base, o moleque abusado e habilidoso já é preterido pelo garoto alto e forte. E, quando o moleque é talentoso demais para ser ignorado, é assediado de forma quase pedofílica por reais madrids, barcelonas, milans etc. Então, sem os grandes craques jogando, entra em cena a rivalidade(saudável) para dar um pouco de charme ao futebol chato que vemos por aqui.

É óbvio que um tricolor nunca verá mal nenhum nas provocações de seu jogador durante a vitória do seu time. Assim como também é óbvio que o torcedor do clube provocado vai se sentir revoltado, mordido, doido para quebrar aquele moleque abusado que sobreviveu aos dólares(não neste caso específico) e aos brucutus. É essa a razão de existirem clubes rivais, é o charme dos tempos áureos que ainda não foi exportado para a Europa.

Quanto aos esquemas táticos, é compreensível. Se os jogadores que desequilibram rareiam, o que passa a fazer a diferença é o comportamento da equipe. E nem sempre uma tática é defensiva, a Laranja Mecânica está aí para provar isso. E, se vemos hoje uma multidão de volantes com porte físico e visão eqüinos, isso também está diretamente relacionado ao nível dos técnicos.


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rodrigoparadella On 12/02/2008

Bom texto, mas é o que eu te disse, pra mim o Thiago Neves não tem nada de alegre , ele tá é mascarado mesmo. o certo seria o R. Gaúcho segurar a onda dele, mas ele é mais mascarado do que o comandado.

Fora isso, eu concordo com tudo e acho que você podia ter falado do Vampeta também, não era nenhum gênio da bola, mas sempre foi bem-humorado e, por isso mesmo, bastante criticado por algumas atitudes e declarações.

Abraço


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james_barrie On 12/02/2008

Mais do mesmo:

http://jardimsuspenso.blogspot.com/2007/09/o-dia-em-que-um-coelho-derrubou-foca.html


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james_barrie On 12/02/2008

A passagem que descreve o gol do Nílton Santos contra a Áustria, na Copa de 58, foi retirada de:
HEIZER, Teixeira. "O Jogo Bruto das Copas do Mundo". Rio de Janeiro: Mauad, 1997. Edição atualizada, 2001. p. 123.





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