Vinha do trabalho, talvez secretária,
ou qualquer outra coisa que num escritório
se obriga a ter certo padrão de aparência,
vê-se pela roupa,
que embora não seja uniforme tem jeito de
(um conjunto cáqui, o tecido já gasto, as
linhas começando a se soltar).
Nos pés, sapatos ordinários e bastante rodados,
o couro sintético está desgastado,
tendo adquirido a forma dos ossinhos
pelas solas nota-se que não reside perto da parada,
caminha, caminha,
provável que por uma rua sem asfalto,
ou não seriam de lama as manchas?
Nós devíamos levá-la nos braços.
Quanto tempo gasto dobrando papéis e sorrindo?
Ainda pouco menina, e agora esses cabelos
que faltam só serem grisalhos,
e esse lápis (lápis?) contornando os olhos.
O cansaço é tanto que ela simplesmente
se esquece do corpo e da postura,
deixa-se, meninamente, pelo menos aqui, cair
são as coxas a escora dos braços.
Um pingente, Nossa Senhora de Alguma Coisa,
faz um pêndulo (padroeira?)
a blusa por debaixo do casaco solta-se e se projeta, dando aver seus dois peitinhos,
únicos resquícios de felicidade,
que nos solavancos fazem uma algazarra,
como se quisessem escapulir.
Que graça,
mais do seu ladinho e
poderia ouvir risos.
Vou fazer um poema.
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
Paulo Ferraz , in Evidências Pedestres
On March 19 2010
1 Views