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Ode à natureza

O que faz da gente homens e mulheres? Em tempos de inversões, regressões, confusão amorosa sincera ou simplesmente sacanagem, aquela frase que nos falavam quando éramos criança perdeu o sentido, aquela que dizia "isso é atitude de homem?" ou uma outra que dissesse que "isso não é jeito de menina falar".

- Um eu racional

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O quarto do apartamento está apagado. Mas nos iluminamos os rostos com sorrisos. Tateamos como cegos e encontramos o outro como um farol. Quase como crianças assustadas diante da noite, apertamos-nos um ao outro. No entanto nada tememos. Não há nada contra a gente: nenhum ontem e nenhum amanhã, pois o tempo desmoronou. E nos florescem das suas próprias ruínas. Apertamos-nos um ao outro com força, as peles se misturam e a minha cor invade a sua formando uma tonalidade nova. Te encontro, na verdade, para sermos um para o outro, uma nova estirpe. Daremos um ao outro cem nomes novos, e tornaremos a tirá-los todos, um do outro, de leve, como se tira um brinco de uma orelha. Mas esse é um daqueles momentos em que só o presente acontece, e eu vou tocando suas costas, brinco com a sua nuca, esfrego meu queixo, meu rosto em você, e te beijo com força, com fúria, com ânsia, pressa e calma, pressa e calma. Escolha o significado que bem lhe agradar, estamos juntos lutando horas e horas e não há mais ninguém aqui com a gente. As comportas insistem em manter, em reter, e há água, água louca, água fervente, querendo irromper e inundar o nosso novo mundo. Muitas horas, muitas, muito mais do que aguentaríamos, e deu-se a liça, e alguém diria que você agora é uma mulher. Há um rio correndo livremente com a natureza a bater palmas de olhos marejados. O rio que estava aqui ontem não é o mesmo de amanhã. Mas só o de hoje importa. Que belo dia para se dizer que se é mulher; ainda que você seja mulher por muitos motivos maiores que esse: parabéns por hoje.

.ag




On March 08 2010 8 Views






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