Os artistas se confundem com seus personagens.
- Sabe-se lá quem disse primeiro.
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Abriu os olhos, levantou-se esbaforido e tomou nas mãos o relógio. Esfregou o rosto, viu a hora, sentou na cama; esticou o braço e pegou mais uma vez a carta. Leu, leu de novo. Decidira enviá-la. Tornou a ler, em voz alta (embora fosse caviar para o vulgar):
O meu vigor e beleza serão seus para sempre; dedicar-te-ei meus dias e minhas noites porque à virtude brotada em mim busquei a motivação em ti. Calarei meus vícios e do seu silêncio me alimentarei; posto bento por fraca respiração, ainda é mais calmo que o meu, envolto de uma agitação constante, uma inquietação insone. Sabe mais?! É essa lembrança que não é amor, mas me tira o sono agora e é a mão a arrancar do meu peito cada letra, é a boca sorvendo-me por completo para depois me atirar desfeito no precipício de onde essa memória me buscou e agora olha e ouve meu gemido baixinho pedindo que vá embora. Não se vai. Porque, sendo mulher, não se alheia completamente: espreita calada à espera de uma vontade que sei não virá.
.ag
On June 04 2009
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