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A mosca.



Havia acabado de chegar em casa, cansado e distraído com a idéia de cumprir rapidamente o resto da minha rotina e logo cair na cama. Tudo corria bem; esquentei o almoço para não perder tempo fazendo janta, bebi água pra não perder tempo fazendo suco, escovei os dentes no chuveiro pra adiantar as coisas e não penteei o cabelo.
Sentei na frente do computador pra responder os e-mails mais urgentes quando percebi um movimento na tela do pc, mas ignorei, provavelmente era um inseto qualquer. Continuei distraído a responder meu chefe neurótico, mas de surpresa uma mosca pousou na minha mão; eu dei uma simples mexida na mão pra ela voar como qualquer mosca normal, mas ela continuou no meu dedão direito passeando com o mouse. Dei uma chacoalhada mais forte e ela pulou para o lado do mouse, dei um tapa na mesa e ela continuou parada como quem olhava e dizia: cara, eu não vou sair daqui. Bom, eu estava cansado pra ficar espantando mosca, então a ignorei e continuei o e-mail. Três segundos depois ela pulou de volta na minha mão. Fiquei com vontade de rir ... e foi aí que percebi que ela era uma daquelas moscas que não voam. (são moscas domésticas normais, daquelas que ficam na mesa do café, porém, por algum motivo – genético talvez – não aprenderam a voar). Bom, continuei a responder o e-mail com ela na minha mão e ela não saía de forma alguma, ela andava pelos meus dedos como quem reconhecia seu novo lar. Continuei como se nada tivesse acontecendo, dando uma risada às vezes pela situação. Comecei a digitar mais rápido e ela pulou para mesa e continuou andando pela mesa como quem anda por uma casa gigante. Ela subiu o teclado e ficou andando na borda. Eu fui e coloquei a mão pra ela subir, ela subiu e eu continuei digitando mais devagar pra ela não pular. Fui digitando e ela ficou parada como se tivesse se habituado ao movimento da mão. Aquilo me fazia rir, mas eu já estava me acostumando também. Logo, eu estava digitando normalmente e ela continuava lá como uma mosca de estimação.
Quando terminei de escrever os e-mails resolvi tirar umas fotos dela, e ela como quem já pousa para fotos há muito tempo, continuava parada, às vezes dava uma caminhada, mas nunca saía da minha mão. Tirei várias fotos: preto e branco, sépia, com lanterna, com luz vermelha... e ela como sempre muito a vontade. E lá estava eu, fotografando a mosca depois de um dia exaustivo de trabalho. Lá estava eu, criando cenários pra uma foto bonita da mosca que apareceu na hora que eu ia dormir – ao mesmo tempo em que me sentia ridículo, estava sozinho em casa e me sentia à vontade mesmo ridículo – foi quando de repente ela voou para cima de um lençol colorido. Entrei em desespero interno, ajoelhei no chão e fiquei procurando por uns 5 minutos, sacudi o lençol, sacudi as roupas espalhadas no chão do quarto e nada. A mosca havia desaparecido. Mas eu sabia que ela ainda estava no quarto e isso não me dava paz. Liguei a televisão, mas volta e meia dava uma olhada pelo chão para ver se ela estava lá. Depois de muito procurar – já passavam de 1 da manh㠖 fui me deitar, mas continuava a pensar na mosca. Foi quando pensei: moscas vivem no máximo 30 dias, ela não podia mesmo desperdiçar muito tempo pousada na mão de um humano; ela tem que aproveitar as coisas com muito mais intensidade. Devo ter sido apenas uma paixão rápida na vida dela, ou longa, quem sabe? Não sei como o tempo passa para as moscas.
Virei para o lado e, enfim, dormi como no fim de qualquer dia, mas dessa vez, por incrível que pareça, sem aquela cotidiana sensação de incompletude.





On February 10 2009 3 Views





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