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A Trilha Élfica na Terra dos Ursos

Os caminhos de uma elfa e de um humano se cruzaram. Ele era um humano em toda a sua essência e em todo o seu esplendor: tão áspero quanto doce, tão rude quanto amável, tão simples quanto envolvente. Ele era um lenhador. A elfa era inquieta e fazia perguntas. O humano encostava-se a uma árvore e observava. Ela ria e chorava, corria e dançava; ele andava e sorria, abraçava e beijava. Ele lhe mostrou o sabor de uma sopa quente, a beleza de uma canção popular. O humano, preto no branco, ensinou a elfa, em todo o seu gradiente de cinza, o mundo em um grão de areia e o paraíso em uma flor selvagem.

O tempo que trilharam juntos foi breve, mas intenso. E tão de repente quanto convergiram, os caminhos afastaram-se. A separação foi tão inesperada que a elfa ficou confusa e caiu. E chorou. Chorou muito. E por muito, muito tempo ela ficou caída e chorando, fraca. E o tempo pareceu parar. O mundo ao redor parecia o mesmo, ainda tinha som e cores, mas era diferente, não tinha brilho e era tedioso.

Mas a trilha élfica segue sempre em frente.

Ela conseguiu reunir suas forcas e se levantou e continuou a andar. Ela olhou pro lado e percebeu que seus novos caminhos não eram os mesmos, mas iam quase juntos, porque no passado haviam sonhado o mesmo sonho. Um riacho corria entre ambas as trilhas e seu curso e suas curvas definiam quando o humano e a elfa se aproximavam ou se afastavam. Cada um de sua margem, eles às vezes se olhavam. No mundo dos sonhos, por vezes se encontravam. Uma vez ou duas, as margens se aproximaram tanto que eles puderam se tocar e se sentir novamente. Em uma dessas vezes, eles conversaram muito; riram e choraram e se abraçaram, e ele colocou uma flor em seu cabelo.

Em algum momento, a elfa perguntou a um druida sobre seu futuro e do humano. Em suas palavras, ele respondeu: “O passado ficou para trás. Esqueça-o. Tu não mereces isso, e ele não te merece: és uma elfa, és divina, imortal. Tu brilhas. Ele é apenas um humano. E como um, é tosco, tolo e pequeno. É tua sombra“. As palavras dos druidas são tão poderosas quanto sua magia e, no momento da resposta, o riacho tornou-se profundo. Suas águas escureceram e a elfa estremeceu.

O novo caminho era solitário, mas quando o riacho permitia que eles se aproximassem, ela ficava leve em seu espírito. Quando a caminhada parecia difícil, a esperança de encontrar uma ponte, natural ou construída, tornava o caminho menos penoso. E era essa ponte lá, tão longe quanto desejada, depois do horizonte, além das quedas na fronteira do mundo, que fazia a elfa ir seguindo adiante, até o dia do reencontro. E assim ela ia caminhando e cantando e seguindo a canção… de um futuro que jamais viria, com alguém que não mais existia.

Até um dia pouco depois do quarto solstício de inverno. O mundo estava estranhamente calmo e isso deixou a elfa muito desconfortável. Nessa noite, a elfa sonhou um sonho terrível. No mundo prateado dos adormecidos, a alma da elfa chamou a do humano, mas ele não respondeu. Houveram vezes antes em que ele não havia respondido. Mas dessa vez foi diferente.

A noite estava fria e profunda, escura e úmida. Uma névoa densa e branca cobria o riacho e ela não podia ver o outro lado. Ela o chamou e sua voz perdeu-se na imensidão do nada. Ela se sentiu terrivelmente só e seu coração pesou. Ela olhou para cima e as únicas estrelas do céu eram as lágrimas em seus olhos. Ela encontrou o druida e ele lhe desejou um bom recomeço de ciclo. E disse: “Que encontres um novo calor para o seu coração e companhia para sua alma“. Mais uma vez a voz do druida vinha carregada de poderosa magia.

As margens do riacho se afastaram e suas águas tornaram-se escuras e caudalosas, formando ondas que se chocavam contra as pedras. E as ondas faziam muito barulho e espirravam água e os respingos se misturavam à bruma. O ar ficou mais frio, a noite mais escura, a névoa se elevou. Tudo ficou confuso e a alma da elfa rodopiou no ar e tentou gritar e se agarrar, mas caiu de volta em seu corpo.

Quando acordou, a elfa jazia só no dia cinzento. Os pássaros estavam calados, o dia estava estéril. O orvalho molhava sua roupa e a flor não estava mais em seu cabelo. Ela percebeu que o caminho à sua frente fazia um forte desvio a leste e dirigia-se a um pântano. Ela sabia que esse dia viria e ele demorou a vir. Demorou tanto que ela chegou a acreditar que as trilhas e o rio andariam sempre juntos. E agora o caminho desviava, bem ali na sua frente. Ela fechou os olhos e suspirou profundamente.

E então levantou a cabeça e olhou para o rio e, em sua outra margem distante, ela viu o humano se afastar. Ele abraçava uma ninfa e acariciava seus longos cabelos. Ela quis dizer algo, mas sua garganta deu um nó. E ela tornou a chorar como havia chorado muitos anos antes. Em seus lábios, as palavras saíam lentas e mudas: “Sí man i yulma nin enquantuva?“.

E o coração da elfa sangrou.




On January 10 2012 43 Views





darkgabi

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darkgabi

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