(...) Antes de tudo, segure a respiração, porque sei que você se apavora só em pensar que os homens têm medo de alguma coisa. A sensibilidade masculina a desorienta. Você só gosta dela nos filmes e nos carinhos no sexo. No fundo, você quer o monopólio da sensibilidade para você. E quer o mesmo homem de sempre (seguro, sólido, sem dúvidas), só não quer sentir-se submetida ele.
Mas os homens têm sido empurrados para a sensibilidade e para a cultura da subjetividade. Talvez sempre fôssemos capazes disso, mas a vida tal como era nos poupava ou impedia. Agora nos afogamos em palavras que não dominamos.
Mesmo com toda a conversa da modernidade, os homens permanecem presos ao sentimento de que devem sustentar suas mulheres (quando de fato as querem para valer), e as mulheres também querem ser sustentadas. Podemos dizer que isso é cultura (isto é, poderia ser mudado via reeducação contínua) ou natureza inata (bem difícil de mudar). O problema é que sentimos que tudo que queremos (atenção, cuidados, delicadeza, dedicação, "a janta") é opressão para as mulheres, enquanto tudo o que caracteriza o desejo da mulher (ser meio paranoica com tudo, exigir mil coisas, ou mais, para se sentir amada suficientemente, fazer-nos esperar por elas, sermos capazes de saber de antemão o que elas querem que saibamos, darmos presentes todos os dias) é direito da natureza feminina. Este é um nó que, com o tempo, desgasta a relação no cenário cotidiano.
O sentimento é de exigência sem fim. Mas, por outro lado, não podemos exigir nada porque, de repente, acende a luz vermelha da "opressão sobre a mulher".
Em sala de aula, quando discutimos questões assim, entre alunos de 20 anos, mais ou menos, a queixa masculina é sempre esta: temos que ser sensíveis, temos de ser durões (a própria metáfora física da potência sexual aponta para isso), temos de ser compreensivos, companheiros, mas..., mas se chorarmos, se perdermos o emprego, se fircarmos tristes, já era... As mulheres são absolutamente insensíveis a qualquer sofrimento masculino que dure mais que cinco minutos. Casamentos não resistem ao fracasso masculino, homens deprimidos são sistematicamente abandonados, enquanto mulheres deprimidas reconstrem a vida todo dia. Homens reconstrem suas vidas mais facilmente quando se casam de novo com outras mulheres mais jovens, mas dificilmente homens deprimidos casam de novo, comumente são recusados por outras mulheres, porque quase sempre a depressão masculina vem junto com perda financeira e perda de saúde, e mulheres, normalmente, não suportam homens fracos e sem dinheiro. Mulheres deprimidas saem mais facilmente da depressão, muitas vezes sem ter o seu casamento original danificado.
O que homens de 20 e poucos homens sentem é que não há plano B para eles. Casamento e paternidade não são suficientes nem para eles como sucesso masculino, nem para suas namoradas. É comum, nesta dita era pós-moderna, ouvirmos mulheres discutindo opções como "quero trabalhar, mas não tanto que ponha em risco a maternidade". Ou discutirem opções profissionais "que estejam em sintonia com sua energia pessoal". O homem sente que isso não existe para ele. Não há opções a não ser o sucesso profissional que deve sustentar todo o resto, mesmo que esteja vivendo com uma mulher emancipada e bem-sucedida. O único ganho real do homem com a emancipação feminina, como diz [Philip] Roth [em seu livro Animal agonizante], é poder abandoná-la à sua sorte sem culpa. E os melhores entre nós nunca fariam isso.
Nada mudou no mundo, tirando o fato de que nós perdemos todos os "direitos" que tínhamos.
(...) Com o passar dos anos, os homens envelhecem e mudam, e também o seu olhar sobre as mulheres. Pior ainda se pensarmos em homens mais inteligentes e exigentes. Não, não basta "trazer uma cerveja e vir pelada". O problema é que as mulheres, na realidade, apesar de dizerem que buscam homens mais inteligentes e exigentes, não estão preparadas para isto quando encontram. Para além das fantasias de empregada, da enfermeira e da colegial, queremos sutileza e pouca preparação. Mais espontaneidade e menos obviedade. Não acredite na história de que somos gorilas com pouco pelo. O homem busca menos controle sobre o que pensam e sobre o que devem fazer para serem vistos como "bons companheiros".
(Luiz Felipe PONDÉ. "Medos masculinos e mulheres obsoletas". In: Contra um mundo melhor. Ensaios do afeto. São Paulo: Leya, 2010. pp. 35-38).
On November 01 2010
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