Avatar bodhidarma

Quebra de protocolo

Olá a todos,

Ao contrário do que se possa pensar (e do que fartamente irá se noticiar daqui por diante), hoje não foi um dia atípico para o Rio de Janeiro, que nesta madrugada e início da manhã de terça-feira fez juz ao nome e alagou-se por completo. Já se contam mais de 70 mortos, há vários deslizamentos, inundações, lixo e lama espalhados por toda parte, o trânsito está absolutamente caótico e os casos de violência começam a despontar incluindo arrastões e saques. Hoje, portanto, falarei sobre a minha visão do fato.

Graças a Deus estou seguro em casa, atendendo ao pedido desesperado do nosso prefeito, mas tenho uma questão: alguma dessas coisas é novidade?

Absolutamente.

A única novidade é o agente causador, chame-o como quiser. O que eu considero e acredito ser divino, outro pode chamar de El Niño, frente fria ou qualquer merda. O que não podemos é sair atribuindo responsabilidade a quem não tem e isto deve ser dito. Eu não assino a conta do aquecimento global ainda que ele esteja acontecendo.

Porém, não quero falar disso. Mais interessante mesmo é perceber o comportamento humano. Ressaltar o fato de que as pessoas entram subitamente em pânico quando aquilo que elas enfrentam ou aturam diariamente começa a mostrar-se ligeiramente diferente do que aparenta, tornando-se incontrolável. Justamente por não controlarmos absolutamente nada e sermos tão insignificantes, fingimos estar sempre no centro ou no controle de tudo. E então acontece uma quebra do protocolo...

No exemplo de hoje, estamos vendo um exemplo óbvio: uma chuva mais forte provoca verdadeiro terror e manifesta o caos em toda a cidade. Se alguém foi a um supermercado viu pessoas indo estocar água e comida ou se ligou a TV e viu o rosto desesperado mesmo em quem estava bem abrigado e alimentado sabe do que estou falando.

Holywood, a bíblia e eu podemos imaginar ou relembrar diversas maneiras de quebrar o protocolo, desde uma praga de insetos até um meteoro ou uma invasão alienígena, por exemplo, passando pelo mais “real” e corriqueiro terremoto, erupção vulcânica ou situação declarada de guerra. Vemos todos em filmes e também em lugares longínquos (Aponte o Haiti ou a Indonésia no mapa...) na vida real, mas podemos somente imaginar vivenciá-los, afinal, para nós cariocas eles simplesmente não acontecem com tanta facilidade (e naturalidade) quanto a chuva.

Eu acho que no fundo o fenômeno é de falta de sensibilidade e quero apontar o que entendo como uma distorção geral na percepção da realidade. Afinal de contas, não consigo aceitar que se caracterize como inesperada tragédia um barraco desmoronar matando uma família, algo que é obviamente recorrente. Baseio-me nos seguintes argumentos começando pelo mais óbvio: choveu, chove e ainda choverá por muito tempo no Rio de Janeiro.

Continuemos... todos os dias uma quantidade de pessoas semelhante a esta (não estou preocupado com estatísticas) é assassinada em decorrência de drogas, violência urbana ou morre no trânsito; todos os dias circulamos em uma cidade pichada, depredada, imunda e simplesmente achamos natural ou viramos a cara quando alguém joga lixo, cigarro ou mija na rua; todos os dias temos medo e evitamos circular por muitas ruas e lugares, criando barreiras e delimitando fronteiras não-oficiais para o direito constitucional de ir e vir; todos os dias nos estressamos ao perder quantidades incontáveis de tempo, saúde e paciência nesta rotina miserável de dependência do transporte público.

Ainda assim ninguém enlouquece além de mim. Por que?

Pela falsa sensação de que tudo está em ordem, sob controle, quando a verdade é óbviamente o contrário – simplesmente estamos caminhando em velocidade aceitável para a degradação absoluta, conseqüente de nossa própria realidade/modo de vida. A quebra de protocolo é só um pé no acelerador. Você sabe como está o Haiti hoje?

Você se importa mesmo com o Haiti? Já achou ele no mapa pelo menos?

O que esta chuva deveria estar lavando realmente são os pecados do mundo, mas eu já definitivamente não acredito que isso vá acontecer. Quem dera molhar, ventar ou sacudir pudesse transformar a natureza humana ou mudar o caráter de quem tem poder e meios para fazer alguma coisa de fato; quem dera pudesse ao menos dar coragem e poder para acabar com a conivência ou impotência dos que não tem meios. Como estou neste segundo grupo, fico apenas no que posso: um comentário pouco lido para a posteridade – minha política em nível interpessoal.

Resumindo: todos os dias alimentamos exatamente aquilo de que temos tanto medo. Seria bom dizer simplesmente NÃO, EU NÃO FAÇO PARTE DISSO.

Eu tento.

“I shall not cease from mental flight
Nor shall my sword sleep in my hand
Till we have built Jerusalem
In England's green and pleasant land
Let it rain
Let it rain
Tears of blood fall out of the sky
Let it rain
Let it rain
Set me free again”
(Jerusalem – Bruce Dickinson)

Na Foto: Dançando na chuva.





On April 06 2010 21 Views



Avatar feirao

feirao On 25/09/2010

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Avatar littera

littera On 07/04/2010

Perfeito!
Ontem eu cheguei a sair de casa pela manhã para trabalhar e voltei umas três horas depois coberta de lama pelas coisas que passei na rua.

Ontem tbm eu e Luciano comentávamos isso. Como pode esperar que dê certo morar em cima do morro e planejar nunca cair tendo construído fora de qualquer norma de segurança?

Mas como eu costumo dizer, pobre, velho e crianças são sempre bons e têm sempre a razão. E vc é que é um jovem imundo que está zombando irresponsavelmente da condição de vida do coitadinho do pedreiro que tem 5 filhos.

Coitadinho? Com 5 filhos? Desculpa!! Pra mim não dá, eu passo.

Tá cada dia mais difícil conviver com as coisas.
Temos que nos encontrar pq eu tô com saudade e pq eu tenho mil histórias pra contar.
Agora eu ando de trem, sabia?
Aliás, ontem eu me sujei de lama pq andei nos trilhos e pq subi na plataforma e arrastando. Foi ótimo!

Um beijo.





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