Eu duvido muito que alguém leia isso, mas caso leia, já digo que tem bastante spoiler desse filme, caso não tenha visto.
Eu procrastinei tanto pra assistir esse filme que finalmente cheguei à conclusão de que há o momento certo para assistir aos filmes e, quando não dá certo, é porque não era o tempo certo.
Utilizei o botão foward várias vezes para ter uma idéia do que se tratava o filme (sim, preferi fazer isso a assisti ao trailer porque muitas vezes eles acabam estragando a magia e a surpresa que o filme traz) e então achei primeiramente um filme super louco e totalmente sem sentido quando vi o cara com uma boneca e não tinha reparado que "o cara" era o Ryan Gosling, quem está na minha lista de atores favoritos.
Pois bem, num belo fim de semana de dezembro, aproveitando os raríssimos dias de "friagem" desta cidade que é o calor multiplicado por qualquer coisa que faça mais calor que um microondas, resolvi enfim dar o play no filme, dessa vez sem utilizar o botão foward. Nossa, que filme incrível! Surpreendi-me do início ao fim e a curiosidade foi aumentando com o passar de cada cena e a ansiedade pelo que iria acontecer também. Fiquei encantada com a simplicidade de cenário e roteiro mas com tantos significados e símbolos mostrados no longa, trouxe uma riqueza até acima do esperado. Não é um típico filme hollywoodiano o qual milhões de pessoas fazem fila para assisti-lo mas acredito que a mensagem que o mesmo passa é bastante forte.
Ao longo de nossas vidas passamos um bom tempo achando que o estranho é algo que nos repele porque nem sempre é aceito socialmente, deixando-o preso na individualidade de cada um e sem deixar aquilo exteriorizar-se.
E é engraçado que justamente por esses dias, estava discutindo a respeito de convenções sociais e veio a calhar de lembrar de Lars. Eu me sinto bastante como ele, querendo quebrar o que não é aceito e fazendo a sociedade enxergar o que está além da “loucura” dele de se relacionar com uma boneca. E achei BRILHANTE a atuação de Patricia Clarkson como Dagmar foi incrível e até eu mesma cheguei a pensar que era de fato uma médica de verdade falando. A forma como ela lidou com a suposta patologia que Gus (irmão de Lars) sugeriu foi uma sacada muito boa. “Ela existe, ela está lá fora”, quando Gus sugeriu que Bianca não existia. Acredito que pessoas que estabelecem uma relação com alguém que mora longe e conheceu pela internet funciona de forma bem semelhante. Mas Lars estabeleceu um vínculo tão forte e tão bonito que acabou sensibilizando toda uma comunidade e passaram a respeitá-la. Lars passou por etapas no relacionamento como qualquer outro e também foi dando rumo à empreitada de sua relação e também da vida de Bianca e, por fim, com a morte da mesma. Confesso que até eu mesma chorei com a morte de Bianca, assim como muitos presentes no velório e enterro, comovidos. Lars voltou à realidade, ou melhor, ele nunca saira dela, viveu um momento da sua vida de forma muito especial onde o toque passou a ser uma das descobertas mais profundas que o ser humano pode sentir, como um cego que consegue enxergar pela primeira vez, ou um surdo quando consegue escutar o primeiro som comum à sociedade. Lars definitivamente foi um dos caras mais simples, loucos, corajoso, verdadeiro e sincero que pude apreciar em um filme, ele conseguiu passar e enfrentar os incômodos que sinto da sociedade, de sempre achar que o certo é realmente certo e o errado sempre está errado. Não, precisa-se questionar, precisa-se provar um erro ou acerto, acertando o que errou e errando o que acertou. Num mundo onde tudo pode ser recriminado e as pessoas são obrigadas a ficarem caladas impedidas de exporem suas opiniões sem que sejam retalhadas, você paga caro demais por querer ser diferente, ou por simplesmente ser você mesmo. Quando não se dança conforme a música, passamos a ser o motivo da piada e da ridicularização e dessa forma “aprendemos a lição” mas a verdade é que a persistência é mais do que necessária porque na verdade, é a própria sociedade que precisa aprender a lição, ou melhor, as lições e terem mais compaixão e humanidade pelo próximo.
On December 20 2011
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