Saiu do carro e passou alguns minutos olhando para aquilo que visitava constantemente quando morava ali. O parquinho de diversões que ficava na frente da escola, construído com baixo orçamento, pequeno para o tamanho de adulto, mas gigante há pouco mais de vinte anos, exatamente no mesmo lugar. O lugar do primeiro beijo, do primeiro machucado, das brigas de criança, das noites de volta das festas onde era o único lugar coberto no caminho até em casa, e lembrou-se de maneira divertida que já havia dormido e bêbado, várias vezes ali, acordando com o calor do sol nas madeiras.
Voltou ao carro, deu uma ultima olhada, precisava ter certeza que as energias estavam cem por cento recarregadas. Ligou o carro, e pôs-se no caminho até a casa de seus pais, andando levaria uns 10 minutos no máximo. Deu a volta por entre os quarteirões, as casas nos mesmos lugares, com as mesmas cores, - mas será que as mesmas pessoas ainda moravam ali? Andou devagar prestando atenção em tudo, desde a cor da grama, o tamanho do muro, as fontes dos números das casas, o nome das ruas, o estado do calçamento. Até que chegou.
Procurou no molho de chaves uma em especial de um lado amarela do outro verde, em comemoração ao tetra campeonato da seleção brasileira de futebol. Chave essa que brilhava no escuro, e salvava o seu pescoço quando voltava tarde do que dizia ser um encontro de estudos e na verdade era uma noitada regada a álcool e outras porcarias que não tinha coragem de lembrar, e precisava entrar sem que ninguém percebesse.
Sua casa estava assustadoramente igual a sua ultima lembrança, a idéia de que por aqui o tempo não passa era constante. Todos os enfeites, as lembranças de viagens, as toalhas rendadas, as fotos nos quadros, o relógio na parede, os móveis. Como se tivesse sido ontem que saiu de casa.
Entrou da mesma maneira furtiva de anos atrás, sendo que nem fazia tanto tempo. Sua mãe provavelmente já havia dormido. Foi até seu antigo quarto, e o mesmo susto de mesmice atrapalhou sua estadia. Não conseguia ficar relaxado, nem confortável com a idéia de estar de volta em casa. As frases do senhor Malta Pai ressoavam na sua cabeça como dita pelas paredes, cogitou a idéia de dormir em um hotel, mas a cidade era tão pequena que o único hotel que poderia estar aberto é tão ruim que a idéia de dormir de novo no Parquinho era mais atraente. Sentou na poltrona que outrora era do velho, ironicamente, ele, Cristian, era o homem da casa, dessa vez sem Laila, e sem herdeiro.
Esboçou um pequeno sorriso imaginando que o filho ou a filha adoraria correr de um lado pro outro naquela casa, que era bem espaçosa, a sala de estar era quase do mesmo tamanho quanto o apartamento inteiro da cidade grande. Colocou as idéias no lugar de novo, não pode viver de algo que não aconteceu. Olhou para a sua velha guitarra pendurada na parede, pensou se ela ainda funcionava. Tinha gravado o nome da moça que hoje era a aeromoça mais bonita que já viu.
A poltrona deitava e com o movimento de jogar as costas pra trás, não era o exemplo de luxo, mas não conseguiria dormir no seu quarto, não agora. Precisava colocar algumas coisas em ordem pra se sentir em casa de novo. Demorara a pegar no sono, os detalhes que lembravam uma casa de uma típica família Italiana eram demais para passar despercebidos. Desde o desenho das janelas, a forma como as taboas eram dispostas na parede, como eram organizados os móveis. Passou a se preocupar com sua respiração, o silêncio era tanto que dava pra ouvir o TIC TAC do relógio na parede, e sua mãe tinha o sono leve, pensou em ir cobri-la, mas não queria acordar a velha, o susto não era recomendável para pessoas dessa idade, e ela já passou por grandes e desagradáveis emoções nos últimos dias.
Censurou-se outra vez, e agora com mais raiva, por não conseguir sentir a falta do pai, em sua casa e principalmente sentado na poltrona que era dele. Nada ali lembrava o velho, era tudo tão sereno, disposto de maneira milimétrica, que não se parecia com o jeito rígido, ríspido e um tanto quanto cruel do Malta mais velho. Tinha uma foto dos três, e Cristian deu um sorriso quando lembrou que era muito mais parecido com a mãe do que com o pai.
A foto da banda no show que aconteceu na escola no dia que a rádio local transmitiu ao vivo também estava no quadro em tamanho grande, talvez o maior quadro pregado na parede. E olhando a moça no meio pensou em voz alta: -Quem diria que ela se tornaria aeromoça! Agora olhando para o terceiro na foto, - E por onde anda o Zolhão Apelido esse que ganhou por sempre estar de olho em Cristian e Keila, ou como chamavam na escola empata foda.
Teria que pensar no que faria pra passar o tempo nos dias de folga que ganhou, mas isso seria amanhã... Hoje só queria conseguir fechar os olhos e não pensar em nada. Conseguiu, mas entre ficar acordado pensando naquela que mudou pra Europa, e dormir sonhando com ela, não sabia o que era pior.
Continua...
On November 06 2009
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t14602
On 06/11/2009
Duas considerações:
1 - O local da foto não me pareceu estranho, mas parquinhos costumam ser muito parecidos. Tem um semelhante perto da minha casa, por exemplo. Por isso, perguntei a procedência. É na Praça do Congresso?
2 - Eu sou criciumense, mas sempre morei no distrito de Forquilhinha, que virou cidade depois dos meus três anos.
deise_pessi
On 06/11/2009
Essas histórias sempre mexem com o emocional das pessoas, essa série de detalhes, principalmente quando se trata do lar nos marcam muito, e é muito gostoso de ler e lembrar do classico relógio de parede, da ordem das madeiras e das ripas da parede, de um buraco feito com cigarro no sofá, da fotos, ai as fotos... é pura nostalgia, mesmo que fique um clima de depre, as vezes trazem uma alegria, matam a saudade. É uma delicia poder guardar esses fragmentos na memória e senti-los as vezes.
Volto para ler a continuação.
Abrç.
t1460
On 06/11/2009
O problema maior nem era a baiana. Eram os funcionários da Catarinense que não tentavam ajudar haha. Aliás, eles deveriam saber que atrasaria e nem isso avisaram!
O ônibus era direto de Criciúma para Floripa. Isso é que me interessa para dizer que é direto. O outro, que provavelmente saía de Criciúma, parava em alguns lugares no caminho.
janaeletrika
On 06/11/2009
Opa, mas é claro que é em papel reciclável, baby!!!
Até meu diário é de papel assim rsrsrs
Beijos e não briga com euuuuuuuuuuuu rsrsrs
janaeletrika
On 06/11/2009
"Censurou-se outra vez, e agora com mais raiva, por não conseguir sentir a falta do pai, em sua casa e principalmente sentado na poltrona que era dele."
É... nos censuramos mesmo, mas temos o direito de não gostar de alguém, ainda que seja nosso pai.
"Conseguiu, mas entre ficar acordado pensando naquela que mudou pra Europa, e dormir sonhando com ela, não sabia o que era pior."
Isso acontece muitas vezes comigo, é horrível, dá angustia, dá vontade de sair de dentro de nós.
Depois que essa história terminar, vou imprimí-la, posso?
Eu entro muito nela, incrível!!!
Aí posso ficar relendo
=D
Beijos lindo e bom final de semana.
stabwound666
On 06/11/2009
Ahhh...eu juro que vou tirar um tempinho pra ler "O Espelho Quebrado" todo!!!
Bjão!
stabwound666
On 06/11/2009
Eu ia comentar no seu post de ontem, mas ja tava lotado! ¬¬°
Todo chique em NY...ahahahah
Boa sorte em suas competições...
Ahhh...quanto ao msn, é pq eu fiquei um tempão sem net e agora que eu voltei quase não entro muito...
Mas quando eu entro OFF vc sempre ta lá!! ehehehe
t1460
On 06/11/2009
Certo, entendi! Deve ser bem complicado, mas tem coisas básicas que não podemos esquecer nunca. O ideal seria fazer uma lista para não esquecer nada na ida nem na volta.
t14602
On 06/11/2009
Onde é o parquinho da foto? Ou é uma foto "genérica" da internet?
Essa parte de dormir bêbado em lugares estranhos já aconteceu com todo mundo haha.
Continua...
jotiinha
On 06/11/2009
Quando era criança, fui descer esse escorregador ai de pé, meu tenis tranco e cai de cara na areia uhauhauhauhauh, ninguem me aviso que era pra descer sentado
tio_dudu
On 06/11/2009
Não vou sumir não meu caro amigo....até porque fica difícil sumir com o meu tamanho....kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Sempre que dá eu apareço.....ainda corrido, mas deve melhorar logo
Abraço