Volta e meia ouço alguem comentando que está cada vez mais raro casais estáveis, que a cada nova geração as pessoas sabem menos se tolerar, e alguns até dizem que casamento está em pleno processo de extinção. E não posso discordar disso, mas quando se parte para explicar o porquê, a culpa geralmente vai para o imediatismo/ consumismo (a cultura de "comprar" ao invés de conquistar, a busca do ideal impossivel - de si mesmo e do outro - vendido pela mídia etc.) ou mesmo pela insegurança e inexperiencia que tem uma geração que cresceu na "bolha": trancada, numa redoma. Com isso eu tambem concordo, mas acredito que a toca do coelho ainda é mais funda.
As pessoas não se entendem por inconsciência. Todos nós somos inconscientes, chego a acreditar que o estado natural do ser humano é a inconsciência, a consciência é a exceção. Mas dá pra correr atrás dela. Quem não busca essa consciencia - a maioria dos seres humanos - vai viver uma vida genérica, um emprego genérico, um casamento genérico, problemas genéricos... e se tem gente que nao vê o menor problema nisso, então tá valendo. Mas garanto que a maioria nao enxerga as opções, simplesmente, e fica ali, em um ciclo de sofrimento.
Os maiores problemas que vivi em meus relacionamentos foram dispositivos gerados no sub-consciente: de um projetar suas sombras e seus traumas no outro, e isso sempre causa conflitos. "Sombra" é um termo junguiano para o que não gostamos (e reprimimos ou fazemos vista grossa) em nós mesmos, portanto temos desconforto em ver essa caracteristica na pessoa que amamos. É a mesma história da frase "criticamos no outro os nossos próprios defeitos". As vezes também a pessoa amada é, por ser normalmente a mais íntima, a única que pode nos chamar a atenção para sombras nossas, por isso se desenvolve o mecanismo de rejeitar essa visão que vem através do outro. Sobre os traumas, isso também é uma espécie de sombra. Fugimos sempre do que nos feriu, principalmente traumas (geralmente formados na infância), e tememos isso em qualquer pessoa que se aproxime de nós. Por ex.: Tom crítico dos pais, obsessões de parentes que nos atingiram diretamente, agressividade, alcoolismo e até solidão infantil causada por ausência (qualquer comportamento considerado "frio" do parceiro pode ser interpretado como uma ausência e causar angústia)
Depois da consciência desses mecanismos do nosso cérebro, que ocorre gradativamente, vamos entendendo que o que comodamente culpamos o outro, lavando nossas mãos, geralmente está muito mais dentro de nós, é muito mais nossa responsabilidade, e aí sim vamos aprendendo a tolerar - o parceiro (também com as suas sombras e traumas) e principalmente a nós mesmos. Mas ainda temos que enfrentar uma segunda etapa - a de exercitar a mudança, que tambem é um processo lento, afinal reprogramar nosso cérebro é uma tarefa que necessita de muita disposição e continuidade, e cada um tem seus processos próprios.
Parece dificil? E quem disse que uma boa vida/ um grande amor são fáceis? ;)
On December 04 2009
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