...
depois pensemos, crianças adultas, que a vida
passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,
mais longe que os deuses.
desenlacemos as mãos, porque não vale a pena
quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio
mais vale passar silenciosamente
e sem desassossegos grandes
sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz
nem inveja que dão movimento aos olhos,
nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria.
...
Pagãos inocentes decadência.
ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-ás de mim depois.
sem que minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
...
e eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira do rio,
Pagã triste e com flores no regaço.
Fernando Pessoa
On May 05 2008
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