Sentada na esplanada, numa gélida tarde de inverno, dou por mim a olhar em volta e a querer sugar tudo ao mais infime detalhe.
Tanta coisa para observar e a única coisa que me prende o olhar é um casal de idosos sentados numa mesa junto à minha…
Conheço-os aos anos, sem nunca ter falado com eles… Quase todos dias que aqui venho, vejo-a chegar com ele pelo seu frágil braço…
Ele vem sempre de fato completo mostrando a elegância da idade.. Ela vem sempre de vestido fazendo lembrar por instantes os loucos anos 20…
Vêm sempre tomar o seu chá… e enquanto isso acontece, ela lê-lhe o jornal.. a voz dela é trémula, mas doce, e ele sempre atento, vai-lhe fazendo perguntas sobre as noticias… Ela gentilmente vai-lhe respondendo… e de quando a quando faz uma pausa na leitura, bebe um gole do seu quente chá e aperta-lhe a mão num gesto de ternura abundante.
Ele é cego… Mas ela desdobra a sua visão em dois, para puder colmatar todas as necessidades do seu eterno companheiro.
Cada cabelo grizalho e cada ruga contam uma historia diferente… eu só conheço uma delas.. a historia de um amor incondicional, que sobreviveu ao avançar impetuoso do tempo e que durará até ao exterminio dos seus mortais corpos…
Porque uma historia como esta não precisa de ser contada em voz alta, sente-se em cada palavra, lê-se em cada sorriso dela e em cada toque dele…
Musica: Summertime – Janis Joplin
Filme: Vanilla Sky
Livro: Desculpa, mas Vou Chamar-te Amor
Quadro: Paula Rego - Sereiazinha
On April 07 2010
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