Eu preciso do café da manhã para começar a relação. Mais do que um jantar romântico, velas tremulando, um vinho de boa cepa e um prato refinado. Teria que me acordar com ela antes mesmo de dormir. Não sei como se faz isso. Como convidar: encontro em minha casa às 8h? Vou esperá-la com frutas, croissants e frios? Ficaria esquisito, distante do roteiro básico: cinema/teatro/show, restaurante e motel. Nada de levar o café para a cama. Mas levar a cama até o café. A mesa e seu jogo xadrez imbativelmente sem graça. As pernas procurando um consenso da neblina com os chinelos. A naturalidade de quem desperta, entre a cara lavada e o espírito engatinhando. É no café da manhã, na dificuldade embaraçosa da luz sobre o rosto, que respiramos descompassados, que se começa a relação. Não quando estamos preparados para seduzir, decorados para sermos melhores, confessando à meia-luz o que há de mais precioso no passado para indicar o futuro. Ora, não tem graça. Se o problema é o dia seguinte, vamos direto ao dia seguinte para depois procurar a noite. Vamos nos separar antes mesmo de casar. Vamos partilhar intimidade antes mesmo de terminar a estranheza. Vivemos praticamente em duas freqüências: pressionar ou impressionar. Impressionar ou pressionar. Pressionar em casa e no trabalho, impressionar na rua e no lazer. Sacrificamos a naturalidade, que está no café da manhã. Ninguém impressiona amanteigando um pão, ritual tão simples, presta atenção: é o pão bocejando. Usamos as palavras mais tolas no lugar das mais vistosas, as primeiras que se acordam, que pouco expressam o que desejamos. Se bate a vontade de reclamar, reclamamos; se bate a vontade de silêncio, silenciamos. Nem projetamos o peito ou escondemos os vincos e as rugas. Ajeitamos os ombros no prato, com a perfeição acústica de uma roldana no poço. No café da manhã, ela vai se espreguiçar. Parece que se estica para logo se contrair com gentileza. Ao derramar o leite no prato da xícara, ela soltará o riso mais desprotegido que conhece. Um riso que é um pedido de desculpa e um agradecimento. Um riso que talvez lembre os recreios na escola, os aniversários de criança, os filhos no sofá. E quando ela sorrir, descobrirá que é possível cortar o mundo com o garfo, e dispensará a faca. E quando ela baixar a cabeça, um pouco encabulada porque não pára de observá-la, descobrirá que pode comer o mundo com as mãos, e dispensará o garfo. A timidez é sensual. O café da manhã com as alças do sutiã escapando das linhas da blusa. A franqueza do café da manhã, a fraqueza do café da manhã. E não poderá mais mentir e dissimular dali por diante se ela ainda é mulher que abre o iogurte e lambe a tampa, para não desperdiçar nenhum resto daquela manhã.
— Fabrício Carpinejar
On April 06 2011
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